O caso Jason Arday sugere que a comunidade acadêmica britânica ficou tão ansiosa para celebrar uma história de sucesso emblemática, que negligenciou os padrões comuns de verificação esperados para todo acadêmico
Durante vários anos, Jason Arday personificou uma história exemplar. Diagnosticado com autismo, não verbal até os onze anos e tendo aprendido a ler tardiamente, tornou-se professor em Cambridge aos trinta e sete anos. Sua trajetória era frequentemente tema de perfis admirativos na imprensa britânica e internacional. Ele também era apresentado como uma figura-chave na diversificação das elites acadêmicas britânicas, muitas vezes descrito, dependendo da fonte, como o primeiro — ou o mais jovem — professor negro de Cambridge.
Hoje, essa história de sucesso está desmoronando sob o peso de alegações de plágio, inconsistências biográficas e investigações sobre suas qualificações acadêmicas. Após inicialmente defender vigorosamente seu professor, Cambridge finalmente iniciou uma investigação interna antes que Jason Arday apresentasse sua renúncia esta semana.
O escândalo vai muito além do caso pessoal de um único acadêmico. Ele revela os excessos de um sistema em que o prestígio de certas identidades prevaleceu sobre os requisitos básicos de verificação.
Acusações de Plágio
O primeiro aspecto do caso diz respeito às alegações de plágio. Análises destacaram inúmeras semelhanças entre sua tese de doutorado e trabalhos anteriores. Uma investigação prévia conduzida pela Universidade Liverpool John Moores não encontrou motivos para medidas disciplinares, concluindo que os problemas decorriam mais de erros de citação do que de fraude deliberada. No entanto, novas evidências levaram Cambridge a reabrir o caso, juntamente com outras investigações sobre sua carreira acadêmica.
A essas suspeitas somam-se questionamentos sobre diversas alegações que desempenharam um papel fundamental na construção de sua reputação. Universidades contestaram os títulos honorários ou as cátedras de professor visitante que lhe foram atribuídos em várias biografias oficiais. Outras alegações referentes a conquistas esportivas, recordes de arrecadação de fundos ou certos episódios espetaculares de sua vida pessoal mostraram-se impossíveis de verificar ou foram até mesmo contraditas pelos fatos disponíveis.
Cambridge preferiu a Identidade à Integridade?
Durante vários dias, Cambridge não examinou as evidências para responder às críticas, mas denunciou uma suposta campanha difamatória. Petições em seu apoio rapidamente retrataram Jason Arday como vítima de ataques racistas com o objetivo de derrubar um acadêmico negro numa posição de prestígio. É claro que é possível que alguns de seus críticos sejam motivados por razões ideológicas. Porém, essa hipótese jamais nos exime da obrigação de examinar os fatos.
No entanto, é precisamente isso que pareceu faltar. Em vez de responder ponto a ponto às acusações, parte do debate deslocou-se às supostas intenções dos acusadores. Essa inversão tornou-se demasiado comum: quando os critérios de avaliação são politizados, a própria crítica é facilmente equiparada à forma de discriminação. Todavia, tal linha de raciocínio é perigosa para todos, incluindo pesquisadores de minorias. Ao sugerir que certas carreiras gozam de proteção especial contra críticas comuns, alimentam precisamente a suspeita que alegam combater.
Como pôde uma universidade tão prestigiada como Cambridge mostrar-se tão relutante em verificar certos elementos – que, afinal, eram fundamentais à carreira d’um de seus professores?
O prestígio associado à sua história pessoal sem dúvida desempenhou um papel importante. Sua carreira tornou-se poderoso símbolo das políticas de diversidade e inclusão adotadas por muitas universidades britânicas. Para muitos, questionar certos aspectos dessa história equivalia a questionar a própria narrativa institucional. No entanto, uma universidade não pode funcionar de forma sustentável somente baseada em narrativas. Sendo assim, deve fundamentar-se numa única moeda verdadeira: a credibilidade científica.
Caso Jason Arday mancha a imagem das instituições
Os desdobramentos mais recentes também mostram que as consequências do escândalo agora estendem-se muito além do mundo acadêmico. O jornal The Guardian revelou que Jason Arday afirmou receber adiantamento de cerca de US$ 1,4 milhão da editora Simon & Schuster. Pagamento de parte dos direitos para seu livro de memórias, Great and Unfortunate Things que ainda publicarão, apesar da controvérsia. A editora recusa a confirmar o valor exato, mas mantém sua confiança no projeto. Assim, enfatizando que nenhuma alegação de plágio diz respeito diretamente ao manuscrito do livro.
Para a Simon & Schuster, a situação tornou-se particularmente delicada. Um contrato de publicação assinado em troca de um adiantamento substancial constitui uma obrigação legal significativa. Logo, suspender a publicação possivelmente levará a complexos processos judiciais com o autor. Entretanto, prosseguir com o lançamento, no entanto, expõe a editora a um risco considerável para sua reputação.
A responsabilidade não recai só sobre Cambridge, mas em toda uma cadeia de instituições — universidades, meios de comunicação, editoras. As quais desempenharam papel importante na construção d’uma figura heroica. Porém, antes de verificarem minuciosamente os fundamentos dessa narrativa.
Excelência Acadêmica Ameaçada
Casos de plágio na universidade são frequentes. Mas o caso Jason Arday ultrapassa disso, sinalizando o colapso da excelência acadêmica. A universidade deve permanecer imparcial em relação a narrativas baseadas em identidade ao avaliar os fatos. Os critérios de excelência acadêmica devem ser os mesmos sempre, precisamente porque protegem a todos da arbitrariedade. É estarrecedor ver que uma instituição tão prestigiosa como Cambridge tão facilmente suspenda seu senso crítico e deixe levar pela narrativa que encaixava perfeitamente nas expectativas ideológicas do momento.
Hélène de Lauzun é correspondente em Paris do europeanconservative.com. Estudou na École Normale Supérieure de Paris. Lecionou literatura e civilização francesa em Harvard e obteve um doutorado em História pela Sorbonne. É autora de Histoire de l’Autriche (Perrin, 2021).
Traduzido por Roberto Lacerda Barricelli a partir do original publicado em The European Conservative – The Jason Arday Case: Identity Over Integrity – com autorização do veículo.
Hélène de Lauzun é correspondente em Paris do europeanconservative.com. Estudou na École Normale Supérieure de Paris. Lecionou literatura e civilização francesa em Harvard e obteve um doutorado em História pela Sorbonne. É autora de Histoire de l’Autriche (Perrin, 2021).
