Quais lições extraímos d’um anime como Zetsuen no Tempest e o que têm a ver com maturidade e inteligência?
Zetsuen no Tempest é um anime muito estranho. Com 24 episódios, a história pode ser dividida em dois arcos que ocupam mais ou menos a metade dos episódios cada. Porém, até aí, está dentro dos padrões comerciais. Ele fica estranho pela completa mudança de tom que o episódio 17 consegue passar. Inclusive, uma das personagens protagonistas até comenta que tudo parece “uma comédia romântica com o destino do mundo em jogo”. E o que tem a ver com maturidade?
A Maturidade das Crianças
O que leva à necessidade de explicar a trama: Mahiro e Yoshino são dois amigos de infância que ficaram profundamente marcados por um acontecimento. A situação entre os dois é complicada pela presença de uma terceira personagem: Aika, irmã de Mahiro e namorada de Yoshino. Acontece que a situação é mais complicada porque Aika não é irmã biológica de Mahiro, mas uma filha que a madrasta dele teve noutro relacionamento.
E ele acabou desenvolvendo sentimentos por ela, sem nunca admitir para si mesmo. Como resultado, os sentimentos se manifestavam em um esforço exagerado de proteger a irmã.
Por isso, Yoshino e Aika namoravam em segredo e fingiam se odiar na presença dele. Mahiro, contudo, como bom amigo, tentava ajudar Yoshino a ter uma namorada (para ódio de Aika). Para parar o irmão, ela espalhou vários rumores absurdos (fazendo Yoshino parecer um assassino em série). Nenhum dos rumores foi tão eficaz quanto espalhar o rumor de que ele estava namorando.
Foi tão eficaz que até Mahiro ficou incomodado porque o amigo nunca lhe disse. De fato, isso prejudicou a amizade deles. Porém, tudo muda quando Aika é assassinada. Nunca encontram o culpado e Mahiro desaparece, enquanto Yoshino segue com sua vida normalmente. Inclusive, ele mantém vivo o rumor de que estaria namorando.
Então, Mahiro volta e, no mesmo dia, um evento apocalíptico acontece e destrói a cidade deles. E isso foi só o primeiro episódio.
Uma trama sobre luto
Para alguns, não é necessário dizer que a trama mais importante do anime é descobrir quem é o assassino de Aika. E isso leva quase o anime inteiro para acontecer. Uma trama aparentemente secundária é levada para o primeiro plano e, literalmente, coloca o mundo em perigo.
E aqueles que conseguem perceber a importância da trama possuem uma maturidade narrativa diferente dos que não conseguem perceber. O que não significa que sejam mais velhos. Maturidade não é questão de idade, mas é associável. Maturidade supõe certa idade, porque supõe certa experiência. Porém, idade não leva à conclusão necessária de maturidade.
Idade leva à suposição de maturidade. O mesmo vale para a correlação entre inteligência e estudo ou leitura. Espera-se que alguém que muito estude seja muito inteligente. Porém, não é preciso fazer um esforço muito grande para perceber que nem sempre é o caso.
Maturidade não é Idade
Pegue um livro de piadas de pai (ou piadas do tio do pavê) e apresente para pessoas inteligentes. É possível se surpreender não com a incapacidade de eles rirem de piadas ruins, mas com a incapacidade de alguns de compreenderem as piadas mais toscas. E, assim como maturidade não é idade, inteligência não é erudição. Por isso, há jovens de 18 anos mais aptas a serem mais que mulheres com seus 30 anos.
Voltando ao anime, não se quer dizer que toda trama romântica deveria colocar o mundo em jogo. Porém, a genialidade dos autores é misturar citações de Shakespeare com uma trama apocalíptica em que há elementos de comédia romântica.
Zetsuen no Tempest é, em suma, uma trama sobre o luto. Mahiro para completamente a vida e vai atrás do assassino de Aika, envolvendo-se com magos e organizações secretas. Yoshino age como se nada tivesse acontecido, num total estado de choque. Para os dois, o mundo perdeu o sentido, quando assassinaram Aika.
Trazendo para a realidade
Muitos dos intelectuais brasileiros são analfabetos funcionais. E isso é válido para todos os espectros políticos e ideológicos. Nem o próprio autor se escusa de ser analfabeto funcional em algum aspecto. O resultado é que a demagogia reina solta. O pior é que muitos demagogos pensam que são oradores.
E há uma correlação necessária entre inteligência e maturidade. Ainda que idade e maturidade não sejam correlacionados de maneira necessária, assim como inteligência e estudo. Tanto que se pode dizer o contrário: há uma correlação necessária entre maturidade e inteligência.
Para desespero dos redpill’s de academia, maturidade ganha da malhação (e não precisa se referir à novela da Globo, se é que ela ainda está no ar).
Salvadores do Mundo
Acontece que muitos dos que tomam a salvação do mundo como pauta o fazem só por questões econômicas (e manuais de redação publicitária, inclusive, incentivam isso). Porém, a verdadeira maturidade é tomar a salvação do mundo como algo pessoal.
Ou seja, não se trata de salvar o mundo, mas de ajudar pessoas com nome. E é isso que falta a muitos dos que se propõem a serem heróis: eles salvam pessoas desconhecidas e, assim, não conseguem resolver os problemas reais que elas enfrentam.
Só conseguem resolver problemas abstratos, não problemas concretos. São pessoas que, literalmente, discutem o sexo dos anjos, mas não conseguem manter um namoro por mais de seis meses.
De Volta à Zentsu no Tempest
Volte-se ao anime do começo. No primeiro clímax, Mahiro e Yoshino se confrontam. O primeiro não se importa de ver o mundo pegar fogo para vingar a morte da irmã. O segundo só quer que o mundo volte a fazer sentido e não quer que o assassinato da namorada seja razão de uma tragédia.
Há necessidade de explicar a metáfora?
O mais importante é que a maturidade de Yoshino o leva a ser um dos protagonistas do trecho em que o anime se parece com uma comédia romântica. Ele teve a opção de destruir o mundo para vingar a namorada e optou por salvar o mundo para que Aika não fosse culpada pelo Armagedom.
PARA VOCÊ
Diretor de Estratégia do Instituto Visconde de Cairu (IVCAIRU).
Formado em Jornalismo pela PUCRS, com mestrado em Comunicação Social, também pela PUCRS, e especialização em psicopedagogia. Acompanho o cenário cultural desde jovem, com o principal motivador para os estudos de imaginário sendo a observação do quanto os colegas copiavam os personagens de filmes e livros que liam.
Possui alguns artigos científicos publicados sobre a temática de jogos digitais, tendo escrito para BSM e Adrenaline.
Pesquisa, de maneira independente, a formação do imaginário e a cultura “nerd”, “geek” e “gamer”, mas é difícil fazer a separação rigorosa quando animes e jogos possuem uma influência mitológica mais intensa que parte da literatura pop. Tanto que o autor é crítico de quem cita Júlio César a partir de O Cavaleiro das Trevas.






