À medida que nossos estados desistem de combater o crime e policiar as fronteiras, os cidadãos europeus lutam cada vez mais para retomar o controle
O que acontece quando os governos se recusam a governar? Vemos a resposta na pequena cidade alemã de Harsefeld, na Baixa Saxônia, que ultimamente é assolada por uma onda de crimes. Moradores europeus reclamam de uma gangue, formada principalmente por adolescentes migrantes. Pois aterroriza a cidade com violência, tráfico de drogas e extorsão. A polícia aparentemente não conseguiu lidar com o caos, alegando falta de pessoal. Também fecharam a delegacia de polícia de Harsefeld, forçando o redirecionamento de chamadas de emergência para uma cidade a 15 quilômetros de distância. Portanto, permitindo que os criminosos fujam antes da chegada das autoridades.
Em resposta a essa violação da lei, forçaram os moradores locais a fazer justiça com as próprias mãos. Grupos de cidadãos europeus patrulham a cidade e registram incidentes. Um porta-voz da polícia descreveu os grupos como “bastante assustadores” e alertou que “um grupo de justiceiros não ajuda ninguém”. Presumivelmente, uma força policial completamente impotente também não.
A polícia local afirma investigar uma série de denúncias, mas que “demora”. Apesar de os líderes da gangue serem conhecidos pelas autoridades e haver provas em vídeo de seus crimes. No entanto, um acúmulo significativo de casos, além da dificuldade do sistema jurídico alemão em processar menores, significa que não fizeram acusação alguma contra quaisquer dos autores até o momento.
A omissão faz parte de um padrão mais amplo de paralisia estatal, que atualmente se repete em toda a Europa.
Omissão, Inação e Paralisia Estatal
Apesar que tanto a Holanda quanto a Alemanha reintroduziram os controles nas fronteiras terrestres, os moradores da vila holandesa de Ter Apel estão fartos da inação do governo. Pois imigrantes ilegais ainda conseguem atravessar da Alemanha para a Holanda. Como resultado, cidadãos europeus preocupados uniram-se e realizam seus próprios controles de fronteira. Munidos de coletes de alta visibilidade e lanternas, no mês passado começaram a acenar para carros perto da fronteira para interrogar motoristas. Alias, em alguns casos, olham dentro dos porta-malas. Como um dos homens envolvidos disse ao jornal holandês AD: “Nada fazem, então faremos nós mesmos”.
Assim como na Alemanha, as autoridades classificaram os grupos como “perigosos” e “realmente inaceitáveis”. Também imploraram aos cidadãos que “deixem a polícia e a guarda de fronteira fazerem o seu trabalho”. É claro que, se a polícia realmente policiasse alguma coisa, não estaríamos nessa situação. No entanto, a polícia holandesa conseguiu reunir pessoal para prender um dos homens que lideravam a campanha. A polícia explicou, sem a menor ironia, que as ações do homem de 54 anos representavam uma ameaça à ordem e à segurança públicas .
A Polônia enfrenta uma situação quase idêntica, também na fronteira com a Alemanha. Também aqui, os cidadãos se cansaram do fluxo interminável de migrantes ilegais e formaram seu próprio Movimento Cívico de Defesa da Fronteira. Na semana passada, juntaram-se a agricultores e seu comboio de tratores para proteger a fronteira, reunindo-se perto de cruzamentos importantes e vigiando veículos suspeitos.
O trabalho torna-se ainda mais difícil pelo fato de as autoridades alemãs trabalharem ativamente contra eles. Viaturas da polícia alemã foram filmadas levando migrantes através da fronteira e deixando de volta no lado polonês, de onde fogem livremente para o país.
Cidadãos Europeus Resistem
Essa tendência de resistência popular à inépcia do governo também é vista na Irlanda. Em cidades e vilas, os moradores locais organizaram bloqueios, fechamentos de estradas e protestos de rua. Mas em resposta à chegada repentina de requerentes de asilo. Conquanto, geralmente alojados pelo estado em áreas onde a moradia já é escassa e os serviços públicos sobrecarregados.
Em março de 2023, cerca de 50 manifestantes bloquearam fisicamente um ônibus de entrar em Columb Barracks no Condado de Westmeath. Pois acomodaria 120 migrantes solteiros do sexo masculino. Um manifestante chegou a acorrentar os portões com um cadeado. O impasse durou algumas horas enquanto Gardaí (policiais irlandeses) tentavam negociar. Quando isso falhou, forçou o ônibus a ir embora, provocando aplausos da multidão.
Apenas dois meses depois, na aldeia rural de Inch, no Condado de Clare, os moradores impediram a chegada de mais requerentes de asilo a um hotel local. Bloquearam as estradas com tratores e fardos de silagem. O protesto escalou a ponto de um ônibus transportando 34 migrantes do sexo masculino ser abordado por cidadãos, que exigiram uma contagem e verificaram as identidades. A população de Inch é tão pequena que não pode ser registrada, e abriga uma igreja, uma escola primária, o hotel e não muito mais. Escusado será dizer que não era nem de longe adequado para abrigar refugiados.
Cidadãos foram Ignorados
Ademais, sequer consultaram os moradores europeus locais. Nada disso importava ao governo irlandês, é claro. Inclusive, com o então Taoiseach Leo Varadkar dizendo: “Ninguém pode dizer quem pode ou não viver em sua área.” O bloqueio durou vários dias, até que o ministro de estado para a integração concordou em não enviar mais migrantes para a área pelas próximas quatro semanas.
Mais tarde, em 2023, cenas semelhantes se desenrolaram em Dromahair, no Condado de Leitrim. Lá, moradores montaram um posto de controle rodoviário “ilegal” para impedir a suposta chegada de mais um grupo de requerentes de asilo à região. Dromahair, com uma população de aproximadamente 800 pessoas, deveria receber 155 refugiados em um hotel local. Um porta-voz do grupo negou posteriormente a existência de postos de controle. Embora uma multidão de 400 pessoas protestou pacificamente contra a chegada de mais migrantes.
O Estado Falhou com os Europeus
A pergunta que deveríamos nos fazer é: o que as autoridades esperavam que acontecesse? Quando o Estado falha, não resta outra opção senão os “justiceiros” – como os chamam de forma pejorativa – intervirem e fazerem justiça com as próprias mãos. Se as pessoas se sentem inseguras nas comunidades em que viveram a vida inteira, os cidadãos europeus comuns inevitavelmente farão o que o governo não faz. Não é o ideal, mas também não é irracional. Outrossim, as forças policiais acertam quando dizem que essas ações são perigosas — alguém pode, de fato, se ferir gravemente. Mas que escolha resta às pessoas? Essa é a consequência natural de um sistema que não serve, tampouco protege mais os seus.
Se os governos quiserem pôr fim a essa ação de justiceiros, há uma solução óbvia à sua frente. Pois basta policiar as fronteiras e aplicar as leis já existentes, mantendo os cidadãos europeus seguros. Não deveria ser pedir demais que as aldeias rurais não sejam invadidas por migrantes ilegais. Ou que cidades dormitório não transformem-se em focos de crimes de gangues. Quando as pessoas perceberem que a lei não as protege mais, estarão fadadas a perder a fé. Porém, não apenas na polícia, mas também em todo o sistema político.
O que testemunhamos em cidades fronteiriças e comunidades rurais por toda a Europa neste momento é o desejo comum das pessoas de retomar o controle. Afinal, se o Estado não fizer o seu trabalho, o povo o fará por si mesmo. E quem pode culpá-lo?
Artigo publicado originalmente no European Conservative, sob o título: “Why Europeans Are Taking The Law Into Their Own Hands“. Traduzido por Roberto Lacerda Barricelli.