Não que Kiyosaki e Taleb sejam necessariamente opostos, porém, acontece um fenômeno que não lhes é exclusivo: a interpretação dominante parece gerar pólos opostos de investidores.
Os adeptos de Kiyosaki são os que vivem falando de ativos e passivos e defendem que comprar casa sempre é ruim. Já os adeptos de Taleb dizem que comprar uma casa pode ser algo positivo, ou negativo, depende se gera força ou fraqueza. Acontece que o maior problema é que todos só são capazes de pensar que uma casa própria ou é um ativo, ou é um passivo. Ou seja, ou é uma força ou uma fraqueza. Porém, o fato é que a casa própria é um passivo na medida em que é um custo. Um ativo na medida em que evita outro custo: aluguel.
E, ao mesmo tempo, traz forças e fraquezas.
Explico! Trocar pagamento de aluguel pela mensalidade de financiamento é uma escolha. Agora, escolher pagar um apartamento à vista ou alugar uma casa é outra. E o primeiro passo do raciocínio é justificar porque não é a mesma coisa. Pois da perspectiva de Taleb, há forças e fraquezas para cada decisão.
Porém, para alguns alugar um apartamento e investir o resto do dinheiro dará maior retorno. Portanto, sempre será melhor alugar que comprar. Outros dirão que sempre é melhor comprar uma casa. E aí é preciso explicar as categorias de Taleb.
Riscos e Custos em Taleb
Pode ser mais interessante comprar um apartamento se a pessoa decide comprá-lo à vista. Mas para trocar o emprego por outro que, num primeiro momento paga menos. Todavia, pode pagar mais no futuro. Basta pensar nos desenvolvedores de Valheim e de Expedition 33 para entender o raciocínio.
Ter menos custos com aluguel liberta a pessoa de precisar receber x dinheiro. Por isso, permite que se dedique às coisas que retornarão menos no curto prazo. Inclusive, o raciocínio de investir é esse! O retorno imediato que se espera é baixo. Entretanto, o retorno a longo prazo é maior e compensa a espera. Porém, há investimentos que simplesmente não são contabilizáveis.
Investir tempo num projeto pressupõe que se quer que vire uma forma de renda. E não é possível investir tempo quando se está ocupado conseguindo dinheiro para pagar um aluguel. Contra isso, alguns ainda argumentariam que um imóvel próprio é imóvel. Portanto, a pessoa fica “imóvel”. Ou seja, precisa fincar raízes e criar laços, impedida de aproveitar oportunidades melhores.
Como se ser um nômade digital fosse ser melhor que um empresário do Vale do Silício em absolutamente todas as situações.
Fragilidade
O nômade digital está numa posição frágil por excelência. Afinal, não pertence a algum lugar. Podemos vender isso como uma força. Mas só é algo bom se a pessoa tem força (saúde, dinheiro, contatos…). Ou seja, ser um nômade digital é escolher não investir em criar um laço comunitário. Enquanto isso, escolher ter uma casa própria implica optar fincar raízes. Portanto, exige que a pessoa se envolva com a comunidade. Querer ter uma casa própria e viver isolado da comunidade é uma ilusão.
Inclusive, quem entende o básico de política sabe que as pessoas se reunirem ao redor dos que são excelentes em busca de conselho e proteção originou a monarquia. Todavia, não significa a inexistência de tiranias que começaram assim.
Porém, alguém que pertença a uma comunidade não está numa situação de fragilidade. Se ficar sem saúde e recursos, supõe-se que a comunidade ajudá-lo-á. A força que tem não deriva só dele. Afinal, fincar raízes talvez seja a melhor previdência possível para uma pessoa.
Resiliência e Robustez
A pessoa com casa própria é mais resiliente a demissões a quem paga aluguel ou o financiamento. Mesmo a CLT, com seus defeitos, tem utilidade na medida em que uma gorda rescisão pode “apagar” um financiamento rapidamente. E é muito mais fácil arriscar e manter a calma para investimentos de sucesso quando não é necessário pensar em como pagar o almoço. Pois as certezas trazem segurança.
Nenhum jovem teria problemas para esperar se soubesse que a amada (ou o amado) seria seu cônjuge no futuro. A incerteza mata. Mas também mata a criatividade e a disposição de correr riscos. Por isso, grandes empresas tendem a surgir de grandes famílias. Ainda que não diretamente.
O Tempo é limitado
Exatamente por isso é preciso se concentrar em aumentar as forças. Ou seja, considerar mais interessante focar em ter uma casa própria que uma biblioteca itinerante de cursos online. Ainda mais quando a biblioteca fica indisponível na Amazônia.
Entenda-se: o que faz uma pessoa forte não é necessariamente o que fará outra pessoa forte. E Anatoly mostra que não é só ir à academia fazer exercícios e ficar bombado para ser forte. Não raro, o excesso no querer parecer mostra o não ser.
Uma passagem por Game of Thrones
O que mostra que Tyrion Lannister foi o único dos filhos de Tywin que entendeu a importância do nome. Por isso, pediu para herdar o castelo do pai. Porém, não atenderam ao seu pedido. Não se quer elogiar a obra, porque tem vários pontos negativos. Mas isso é algo que merece o devido mérito: Tyrion melhor entendeu, talvez a contragosto, que o nome que carregava valia mais do que ele.
Aquele que finca raízes deve entender que construir uma comunidade é deixar uma comunidade de herança aos próprios filhos. Pois o nômade digital, não raro, é estéril até quando têm filhos por não criar a comunidade.
Os pais não possam escolher quem serão os cônjuges dos filhos. Contudo, podem melhorar ou piorar as chances a partir das comunidades que criam para os filhos.
Antifragilidade em Taleb
A ideia básica por trás da antifragilidade é que, por exemplo, se uma pessoa é demitida, o chefe dela é que tem problemas. Porém, Taleb avisa que as pessoas são frágeis, resilientes, robustas e antifrágeis em coisas diferentes e ao mesmo tempo. Evidente que muitos nunca terão algum aspecto de antifragilidade. Ademais, que as muitas fragilidades geram uma pessoa, no geral, frágil.
Porém, não significa que o antifrágil não tem ponto fraco. Ou que uma série de pontos fortes gera alguém absolutamente antifrágil, como explica Taleb. O pior guerreiro do mundo terá vantagens contra um espadachim se usar uma lança. Uma espada é mais curta que uma lança. Neste caso, trata-se do problema de atacar a força de alguém fraco usando algo que é fraco contra a força dessa pessoa.
O mundo é muito mais dinâmico do que uma planilha de dois eixos é capaz de mostrar. Portanto, seguindo o exemplo, ainda que o pior guerreiro derrote o melhor, não se torna o melhor. Pois só tinha uma arma melhor.
Por fim, vale destacar que, na prática, muitos dos “grandes guerreiros do capitalismo” só vencem por usarem lanças contra espadas. Ou por mandarem os escudeiros surrarem os adversários antes de aparecerem para dar o golpe de misericórdia. Eles agem como Taleb. Mas ensinam a seguir Kiyosaki. E, o pior, ensinam sua interpretação de Taleb e Kiyoshaki. Ou seja, não necessariamente o que esses autores ensinam. Então, perdão por qualquer imprecisão.
Conclusão
Conclui-se com o óbvio que dinheiro só pode ser gasto. Já o patrimônio não necessariamente. Ao mesmo tempo, um patrimônio pode valorizar e desvalorizar. Enquanto a tendência do Real é desvalorizar com a inflação.
Boa fama vale mais que poder e poder vale mais que dinheiro.