Ninguém pode se considerar um analista político se não tiver como distinguir, claramente, o que é política de estado e o que é política de governo
Se para regimes estáveis e duradouros a diferença é inócua, para democracias que oscilam de governo a cada quatro, oito ou dez anos, a diferença é importantíssima. Dois exemplos. Bolsonaro foi eleito com uma plataforma liberal, mas foi forçado a expandir o auxílio social. Ainda que alguns considerem que se trata de “imposto negativo”, a medida não foi recebida como uma “política de direita” por muitos que votaram nele. Porém, isso sinaliza algo importante: o Bolsa Família já virou política de Estado, não é mais do governo. Ou seja, cada governo eleito tem que se virar para manter o Bolsa Família.
Outro exemplo é o Governo Trump tentando cessar o apoio americano à Ucrânia. E o estado americano forçando para que o fluxo de armas e dinheiro continuasse. Em poucas palavras, a política de estado supera no tempo e no espaço as políticas de um governo. Pois elas obrigam governos. No entanto, as políticas de um governo são as plataformas que o fazem ser eleito.
Porém, não raro, um presidente só é eleito para manter as políticas de estado de maneira mais eficiente que seu adversário. Ou, ao menos, é a justificativa que alguns dão para votar nele. E é por não entenderem essa diferença que muitos não entendem parte da derrota de Bolsonaro.
Direita pró-Palestina
O avanço do pensamento duguinista nas alas conservadoras criou a direita pró-palestina. A classificação é grosseira porque é irrazoável pensar que todos os pensamentos políticos podem ser alinhados em dois espectros. Porém, quem tiver o mínimo de atenção, consegue perceber que existe uma direita liberal e uma direita nacionalista que se parece com o Ciro Gomes. Tal exemplo pode ser menos polêmico do que uma direita pró-palestina, mas já ilustra a questão.
Volte-se para a questão central. Após 14 anos de PT (Lula e Dilma), não só o Bolsa Família virou Política de Estado, como certos apoios políticos relacionados ao BRICS. Portanto, com quatro anos, Bolsonaro nunca teria tempo para, com suas políticas de governo, reverter as políticas de estado totalmente.
O que, na prática, significa que Lula assumiu em 2023 com um Brasil com política de Estado que mantém estruturas mais favoráveis ideologicamente à sua agenda política e econômica do que no primeiro mandato pós FHC. Isso não significa que a população apoiava essa agenda. Porém, o hiato entre a agenda do estado (e governo) e a população manifesta-se na falta de popularidade. O que não basta para tirar Lula do poder.
Sério. Baixa popularidade não basta. Só estudar a história de Roma.
Agora, o ponto central permanece. Elegeram Lula para manter determinadas políticas de estado. Afinal, ao menos uma parcela pensava assim quando votou no candidato petista. E não há porque pensar que o apoio do Brasil à Palestina seja parte dessas políticas defendidas. Ademais, quem não entende que há uma “direita pró-palestina” não consegue entender como Lula poderia ter vencido sem fraude. Mas destaque-se o “poderia”. Pois a discussão aqui não é se houve fraude ou não.
Os pilares do Mundo político
Grosseiramente, são três os pilares de sustentação de um governo:
- Opinião Pública
- Elite Econômica
- Elite Política
Alguns gostariam de colocar uma “elite militar”, mas os militares brasileiros tendem a ser legalistas e só garantidores do processo político. Ademais, outro detalhe relevante é que “opinião pública” é mais que “opinião popular”. Pois se a imprensa não criticar um governo, não adianta a popularidade estar baixa. Porém, ao menos parte da imprensa seguirá o reflexo do povo.
Quanto à elite política, muitos estão cansados de saber como os políticos podem ser comprados com corrupção, mas é perceptível a queda do apoio político de Lula. A derrota na votação do IOF mostra isso. Portanto, traz o último fator: a elite econômica.
Tarifas de Trump protegem uma política de Estado?
Da perspectiva liberal, as tarifas de Trump só podem ser consequência de incompetência da esquerda. Não podem ser fruto de um plano. Talvez Trump fez as tarifas antes de colocarem outros mecanismos em operação. Mas é relevante perceber que a conversa de uma moeda do BRICS não se trata somente de economia. Trata-se de poder.
Porque todos sabem que o poder principal dos EUA é a política de Estado da dolarização da economia mundial. Logo, uma moeda alternativa ao dólar serve para tirar a Rússia da dolarização. Porém, o que significa a dolarização? Significa que todo mundo olha para o dólar, ainda que faça uma compra sem usar o dólar. Pense que você comprará em Ienes e, antes de pagar, os reais e os ienes são convertidos para dólares.
Imagine agora que seja possível converter diretamente. Logo, imagine que o rublo russo não esteja tão desvalorizado em relação a essa moeda quanto ao dólar. Para quem pensa que se trata de mera incompetência política ou econômica, há um forte engano.
Direita Nacionalista
Parte da direita brasileira verá com péssimos olhos a ação de Trump de tarifar o Brasil. Isso significa que Lula manter-se-á no poder e o Brasil caminha para uma Venezuela? Não. Mas, em miúdos, significa que o destino do Brasil depende do quanto o nacionalismo é uma política de estado e o quanto é uma política de governo. Afinal, ao mesmo tempo em que as tarifas de Trump representam uma ameaça, também são uma oportunidade de reforçar a indústria nacional.
Não que as pessoas que enxergam tratar-se d’uma oportunidade pensam que será para breve. Pois há quem veja uma oportunidade e, mesmo assim, é compreensível quanto às dificuldades imediatas. Todavia, há erros que só pessoas muito inteligentes podem cometer. E o principal é imaginar que os adversários não tem um plano que passa por dificuldades.
Os nacionalistas não necessariamente veem as tarifas como um bem em si, mas podem ver como uma oportunidade de reforçar a indústria nacional. Ademais, o discurso pode vingar, aumentar o antiamericanismo e, sim, levar o Brasil para fortalecer os laços com a Venezuela. Ao mesmo tempo, a elite econômica pode ficar profundamente incomodada e Lula cometer um crime de responsabilidade fiscal. Seja qual for o futuro, não dá para dizer que está determinado.
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